Senhores da palavra que trocavam versos por produtos — e ajudaram a moldar o marketing literário que conhecemos hoje.

No alvorecer do século XX, enquanto o Brasil começava a se modernizar — com bondes, cafés literários e novos periódicos — um grupo de poetas notáveis resolveu trocar o terno pelo verso… a serviço da propaganda. Olavo Bilac, Bastos Tigre, Ernesto de Souza, Augusto dos Anjos e outros talentos assumiram um papel inusitado: redatores de jingles e slogans em forma de poema. Eles não apenas viviam da poesia, mas da habilidade de vendê-la ao consumo — e, no processo, ajudaram a fundar o que hoje chamamos de marketing literário.
Olavo Bilac, o “Príncipe dos Poetas” parnasiano, foi um dos principais exemplos dessa transição. Contratado para divulgar produtos como fósforos Brilhante, Bilac criou quadras elegantes como:
“Aviso a quem é fumante
Tanto o Príncipe de Galles
Como o Dr. Campos Salles
Usam Fósforos Brilhante.”
Esse tipo de poema redacional trazia prestígio, à medida que se associava marcas a figuras de status político-cult. Bilac cobrava caro: uma de suas quadras chegou a valer 100 mil réis

Manuel Bastos Tigre foi outro nome central. Jornalista, engenheiro, bibliotecário e poeta, ele teve reconhecido talento para o jingle antes mesmo da palavra “jingle” existir no Brasil. Foi responsável pelo slogan “Se é Bayer é bom”, gravado até hoje como exemplo de branding duradouro. Além disso, escreveu as célebres “Bromilíadas”, um poema longo em forma de ode, paródia inteligente de Os Lusíadas, para promover o xarope Bromil na revista D. Quixote. O sucesso foi estrondoso, e mostrou que linguagem erudita também podia vender saúde — e tinta na banca.
Outros poetas, como Ernesto de Souza e Augusto dos Anjos, prestaram serviços publicitários com mini‑hits poéticos.
Essa presença ativa de poetas no mercado publicitário revela duas tendências marcantes: de um lado, a profissionalização da literatura; de outro, a consolidação da propaganda como campo legítimo de expressão cultural. Eles provaram que versos formais podiam ganhar vitrines, bancas e adesão popular — e que a sua sobrevivência criativa muitas vezes dependia dessa mistura instigante entre arte e comércio.
Essa situação abre um paralelo fértil com o cenário literário contemporâneo: hoje os autores ainda usam seus talentos para divulgar livros — só que com novas ferramentas. Em vez de quadras sobre fósforos, temos trailers literários, posts no Instagram, parcerias com influenciadores (booktokers), podcasts, newsletters e eventos literários patrocinados. A lógica é a mesma: conquistar leitores, destacar-se em meio ao ruído e transformar palavras em oportunidades reais.
A grande diferença é tecnológica — mas o dilema central permanece: até que ponto a literatura deve ceder ao mercado? O que mudou foram os canais, não o esforço. E, justamente como Bilac e Tigre mostraram, a criatividade poética continua sendo um diferencial no marketing literário. Hoje, autores criam “slogans literários”, campanhas visuais, lives com roteiro e tom poético — e, em alguns casos, lançam jingles (com ou sem música) para conectar afetivamente o leitor. Em última análise, os “poetas da propaganda” revelam que a literatura, quando aliar-se à persuasão com arte e autenticidade, não só se torna viável, mas também se reinventa. E isso é reflexo de uma tradição centenária que segue viva: a de writers que escrevem para vender — e, ao mesmo tempo, vendem para escrever.


Deixe um comentário