Episódio 3: O novo estagiário

Uma história original de Cristiano José Pinto

No capítulo anterior

Tom e Lázaro seguem vasculhando as peças soltas do suposto suicídio de Luiz da Gasolina.
Um vídeo silencioso, gravado por câmeras de segurança, mostra o ex-prefeito em uma discussão tensa com um homem ainda não identificado.
Essa imagem — frágil, mas reveladora — se torna o ponto de partida de uma nova frente investigativa.

Agora…

O Repórter

O almoço daquele segundo dia não foi muito diferente do primeiro, na opinião de Tom. Glória voltou para casa umas onze e trinta da manhã, ajudou Maria Rita a finalizar e colocar a mesa. Todos sentaram-se e comeram enquanto a dona da casa especulou a manhã de cada um.

A única exceção foi a presença de Ana Clara, uma visita inesperada e muito comemorada pelos donos da casa.

Para desgosto de Tom, a adolescente não viera apenas para ‘filar’ o almoço dos tios — ela viera para ficar. A garota morava até então em alguma cidadezinha do norte do estado que Tom não fez questão de decorar, conseguiu uma boa nota do Enem e, a convite de Glória, escolheu o curso de jornalismo da Unemat de Tangará da Serra.

O primeiro dia de aula da moça se daria naquela noite e sua empolgação ficara evidente em seu modo de falar sobre o evento futuro. Tom ainda notara nela uma ingenuidade típica de quem crescera em uma cidade pequena, mas principalmente a sagacidade e curiosidade natas em um bom jornalista. Talvez por isso ele não tenha gostado muito dela, desde o início.

— Então, menina, o que seus pais acham de você estudar fora? — perguntou Tom após a ouvir falar de como sua cidade era calma e todo mundo conhecia a vida de todo mundo. E como ela gostava daquilo. — Ainda mais aqui. Tangará embora não seja muito grande, as pessoas se comportam como se vivessem em uma. Não vai encontrar aqui muitas pessoas preocupadas com o dia do vizinho.

— Estão tristes, senhor — respondeu ela parecendo não entender a alfinetada, maldade do repórter aposentado. — Mas felizes porque vou ficar com o tio e a tia.

— Não se preocupa, Tom — interveio Glória, atenta ao jogo ranzinza de seu hóspede — Ana vai comigo para a Unemat. Ela tem que resolver algumas pendências da matrícula. Então vão poder aproveitar tranquilamente a tarde de vocês…

O primeiro dos três candidatos à vaga de estagiário — dois rapazes e uma moça — chegou por volta das 14h15. Era um jovem esperto, sagaz, mas confiante demais para a opinião de Tom. O velho repórter permaneceu calado e atento aos arquivos do caso do Luiz da Gasolina, mesmo não perdendo nada que acontecia há menos de dois metros, enquanto Lázaro entrevistava o acadêmico do 4º semestre de Jornalismo. Pelo que o experiente jornalista notara no modo e no que falava o jovem, os cursos atuais falhavam em eliminar a arrogância de seus alunos.

Tom fingia olhar um arquivo enquanto fuzilava o rapaz pouco antes de Lázaro o dispensar dizendo que o avisaria de sua escolha após terminar as entrevistas. A presunção, ou confiança desmerecida em si mesmo, levava o acadêmico a já se considerar o escolhido, independentemente de qualquer outro que o editor do Tangará Informa ainda pretendesse ouvir. O velho repórter preparava uma farpa para dizer, mas esqueceu-se completamente ao notar algo que passara despercebido por ambos até então.

— Garoto! — chamou Tom quando Lázaro se sentava diante de seu notebook e preparava-se para voltar a escrever sua matéria sobre um moleque desaparecido no Ypê. Era o segundo em menos de um mês. — Estou ficando senil de vez, ou não vimos isso antes?

— Senil eu duvido, mas desatento é provável…

Lázaro parou de falar ao ver a ficha do vereador Ian Maurício, 28 anos de idade, em seu segundo mandato. A joia da nova geração de políticos tangaraenses. A folha tratava-se tão somente do perfil do legislador na Câmara. O que tornava os dois veteranos do jornalismo relapsos foi que aquele rapaz já tinha sido visto por eles no vídeo de segurança do estacionamento da Câmara, discutindo com ex-prefeito tachado pela polícia e mídia marrom como suicida.

— Como eu não o reconheci? — lamentou Lázaro revendo o vídeo pela enésima vez. — O nosso amigo com sobrepeso é sobrinho de um dos empresários mais ricos da cidade, eles têm lojas nas quatro cidades mais importantes desse lado do estado.

— Vamos lá dar uma palavrinha com o vereador?

— Desculpa — disse Fabrício à porta, onde esteve nos últimos dois minutos sem saber se deveria ou não interromper. — O senhor pediu para avisar quando chegasse alguém para a entrevista…

— Pede para voltar amanhã! — exclamou Tom pronto para sair.

— Não — titubeou Lázaro. — O vereador vai continuar lá, Tom. Ele pode esperar eu ter alguém para cuidar do site, não pode?

— Espero que sim — resmungou o repórter, voltando para seu nicho atrás da mesa maior do escritório do Tangará Informa.

— Fabrício, se não for pedir demais, pode trazer o rapaz aqui?

— A moça — corrigiu o enfermeiro. — Agora é uma mulher.

Diferente de Ana Clara, tanto na aparência quanto no comportamento arredio, ou mesmo de seu concorrente anterior, a jovem mostrou-se educada e mais disposta a aprender com eles do que mostrar-se perspicaz na profissão. Estava no sétimo semestre e colecionava notas altíssimas ao longo dos três anos e meio de estudo.

Embora tivesse conquistado a simpatia dos dois veteranos, Lázaro ainda precisava falar com o terceiro. Que chegara e esperava na cozinha com Fabrício. Tomavam café quando a moça saiu.

Os óculos grossos e timidez foram o marco do rapaz no último semestre do curso de Jornalismo da Unemat de Tangará da Serra. Notas altas e domínio de programação, além de promessas de tornar o site ainda mais moderno foram as qualificações que ele utilizou para conquistar a simpatia de Lázaro. Não tanto a de Tom, avesso à tecnologia e sua importância para um bom jornalismo. Não que o rapaz ainda precisasse estagiar, apenas queria melhorar seu currículo para quando se formasse.

— Carlos, estou impressionado com seu currículo — disse Lázaro ao se despedir do rapaz. — Por isso tenho que ser sincero: vou ficar com a Mariana. Não porque ela é melhor que você, longe disso. Você está pronto. Seria um desperdício te contratar como estagiário. Além disso, já cumpriu suas horas necessárias para se formar. Quando isso acontecer, se ainda estiver livre no mercado, venha falar comigo, já como colega, quem sabe terei condições de contratá-lo em definitivo.

Na manhã seguinte, Mariana chegou pouco antes das sete da manhã. Vestia-se como se fosse fazer a âncora do Jornal Nacional. Como Lázaro ainda demorou um pouco, Tom a colocou para fazer um café para ele.

Ela voltou com duas xícaras no instante que Lázaro surgia no corredor.

— Não precisa fazer café para esse velho rabugento — disse ele após a cumprimentar e ambos entraram juntos no escritório. — Se o paparicar dessa forma, ele vai se aproveitar de você, só isso.

— Pronto para irmos? — perguntou Tom levantando-se. — Achei que eu fosse o velho aqui, mas você quem acorda tarde.

— Para onde? — quis saber Mariana entregando o café de Tom.

— Ainda é cedo, Tom. O vereador nem deve ter chegado na Câmara ainda.

— Não vamos para a Câmara.

— E para onde vamos?

— Fazer uma visita de cortesia ao nosso estimado vereador — disse o velho repórter movendo todas as rugas do rosto em um sorriso atemporal.

— Não sei onde ele mora…

— Mas eu sei! — garantiu Tom bebericando o café. — O que acha que eu fazia conversando com aquela moça na recepção?

Mariana acompanhava aquela conversa atentamente. Na maior parte tentando entender sobre o que falavam, mas principalmente por admiração. Estava entre duas lendas do jornalismo de sua cidade, aproveitaria cada instante, cada conversa, cada gesto.

— Antes vou tomar meu chá matinal — informou Lázaro ligando o seu notebook — e ensinar a Mari como atualizar o site… — Toma logo seu chá — exigiu o repórter aposentado — a água já está fervendo na cozinha. Certo, menina? — Mariana assentiu, tentava disfarçar o sorriso, a empolgação de participar daquele debate. — Vai falando do site enquanto bebe, e depois traz ela com a gente.

No próximo capítulo

O trio formado por Lázaro, Tom e Mariana parte para entrevistar o vereador flagrado no vídeo com Luiz.
O que encontram nessa conversa vai redefinir não apenas o rumo da apuração — mas o futuro dos próprios repórteres.
E a história, que até então caminhava com passos cautelosos, finalmente começa a correr.

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