Entre lendas e letras: o folclore brasileiro na literatura

Da oralidade à página impressa, o imaginário popular moldou parte decisiva da literatura brasileira, revelando como o maravilhoso se tornou espelho da cultura do país.

O Dia Mundial do Folclore convida a olhar para o patrimônio imaterial que sustenta a cultura de um povo. No caso brasileiro, é impossível pensar em literatura sem ouvir, ao fundo, as vozes antigas que atravessaram gerações em forma de cantos, lendas e narrativas orais. O folclore não foi apenas matéria-prima para escritores: tornou-se alicerce de uma literatura que, desde os primeiros passos, buscava afirmar sua identidade diante do mundo. E, se a oralidade mantinha vivos os mitos, foi a pena dos autores que lhes deu novas roupagens, trazendo o maravilhoso popular para o espaço da criação literária.

No século XIX, o Romantismo abriu caminho para essa fusão entre erudição e cultura popular. José de Alencar, em sua busca pela “cor local”, ouviu os cantos e crendices que vinham das cozinhas, dos mercados e das conversas de rua, transformando-os em literatura. A figura do pai Benedito em O tronco do ipê ou as histórias populares que atravessam A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, são exemplos de como a imaginação popular começou a ser registrada e reinventada. Bernardo Guimarães, por sua vez, deu voz ao sertanejo em narrativas como “A dança dos ossos”, onde a oralidade aparece em estado puro, marcada por causos e assombrações que vinham do coração da roça. O Romantismo brasileiro, ao contrário do europeu, que exaltava o passado medieval, voltou-se para as histórias do povo simples, recolhendo o que havia de mítico e de maravilhoso no cotidiano do país.

Esse movimento, no entanto, não se limitou à inspiração literária. Vieram depois os coletores, homens que entenderam que aquelas histórias não poderiam se perder. O general Couto de Magalhães percorreu o interior do Brasil e registrou mitos indígenas, revelando um universo simbólico de jabutis falantes, onças astutas e antigas explicações sobre a origem da noite. Sílvio Romero publicou, em 1885, seus Contos populares do Brasil, onde reuniu 88 narrativas de origens diversas — europeias, indígenas, africanas — e lançou as bases para os estudos de nossa tradição oral. Mais tarde, Luís da Câmara Cascudo consolidaria esse caminho com seus Contos tradicionais do Brasil, obra monumental que classificou, comparou e preservou histórias colhidas da boca do povo, das feiras de rua às varandas

das casas nordestinas. Esses nomes foram guardiões de uma memória que corria o risco de se perder, e sua contribuição não foi apenas acadêmica: foi cultural, nacional.

Mas talvez ninguém tenha popularizado tanto o folclore quanto Monteiro Lobato. Com ele, o Saci deixou de ser apenas um personagem de lendas contadas à beira do fogo e ganhou lugar definitivo na literatura infantil. Ao escrever O Saci e inserir o personagem no universo do Sítio do Picapau Amarelo, Lobato fez mais do que registrar uma tradição: ele a reinventou, aproximando-a das crianças e transformando o mito em pedagogia literária. Foi através de Lobato que gerações conheceram não só o Saci, mas também a Cuca, o Curupira, a Iara e tantas outras figuras do imaginário popular, fixando-as no repertório da infância brasileira. Em seu gesto criativo, o folclore ganhou nova vida, deixando de ser apenas objeto de coleta para se tornar experiência viva de leitura.

A modernidade literária não abandonou esse diálogo. Guimarães Rosa mergulhou no sertão como quem escava um fabulário ancestral, povoando suas Primeiras estórias e seu Grande sertão: veredas de um imaginário que transita entre o mito, o causo e o épico. Mais recentemente, escritoras como Marina Colasanti e Conceição Evaristo mostraram como o maravilhoso e o realismo animista — herança das cosmovisões africanas e indígenas — seguem vivos em nossa literatura, recriados em narrativas que tanto encantam quanto questionam. O folclore, nesses casos, deixa de ser apenas tema e passa a ser estrutura narrativa, uma forma de enxergar o mundo que organiza símbolos, arquétipos e modos de dizer.

Celebrar o folclore, portanto, é reconhecer que nossa literatura não nasceu isolada em gabinetes, mas germinou no cruzamento de vozes, nas histórias contadas em volta da fogueira, nas ladainhas, nos cordéis, nos mitos indígenas, nas fábulas africanas e nas heranças europeias. O folclore é memória, mas também é futuro: cada vez que um autor recorre a ele, reinscreve no presente uma tradição que insiste em permanecer. E, se os livros guardam essas narrativas, é porque a literatura brasileira aprendeu a se nutrir delas para afirmar sua própria identidade.

No Dia Mundial do Folclore, revisitamos esse caminho não apenas para lembrar o passado, mas para reafirmar que nossas lendas continuam vivas, reinventadas a cada leitura e a cada nova voz. No encontro entre a oralidade e a escrita, entre a lenda e a letra, pulsa a literatura brasileira em sua forma mais autêntica.


Esta matéria foi desenvolvida a partir do e-book Considerações sobre o maravilhoso na literatura e seus arredores, organizado por Maria Celeste Tommasello Ramos e publicado pelo UNESP/IBILCE em 2021 (acesso aberto; ISBN 978-65-990334-8-3). A obra integra as atividades do Grupo de Pesquisa “Narrativas maravilhosas, míticas ou populares” e contou com apoio da CAPES (Processo n. 2018/0747).

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Uma resposta para “Entre lendas e letras: o folclore brasileiro na literatura”

  1. Avatar de zoritoler imol

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