Entre o devaneio e o delírio, a literatura romântica segue inquietando o imaginário brasileiro — mas será que ainda temos algo a aprender com seus amores trágicos, heróis solitários e paisagens idealizadas?

Se tudo é fugidio — a memória, os sentimentos, as promessas —, por que, então, o Romantismo resiste? Quando tantos estilos literários surgem e desaparecem em meio a tendências passageiras, a permanência dos românticos parece um paradoxo. Seus amores trágicos, seus heróis atormentados, suas paisagens idealizadas e seus impulsos de morte ainda provocam fascínio. Seria ingenuidade da parte de quem os lê? Ou haveria, sob o véu do excesso, algo essencial, algo que a literatura contemporânea — tão contida, tão autoirônica — deixou escapar?
O Romantismo não foi, no Brasil, apenas uma escola estética. Foi, antes de tudo, um gesto fundacional. Em um país recém-independente e ainda tateando uma identidade própria, o Romantismo surgiu como a linguagem possível para dizer o que ainda não existia. Não havia uma nação clara, mas havia o sonho de uma. Não havia uma literatura consolidada, mas havia o desejo de se narrar. Daí a função quase mitológica de escritores como Gonçalves Dias, José de Alencar e, mais tarde, Castro Alves. Cada um à sua maneira construiu, com palavras, uma ideia de Brasil — ora idealizada, ora heroica, ora inconscientemente colonial. E é justamente esse paradoxo que nos obriga a relê-los.
Na poesia, o sentimento era celebrado com a força de quem não tem vergonha de sentir. Não se tratava de controle, mas de transbordamento. Álvares de Azevedo, morto aos vinte, escreveu como se cada verso fosse um testamento. Casimiro de Abreu, com sua saudade de infância e pátria, tornou-se símbolo de uma juventude eterna e irrecuperável. Esses poetas falavam de dor, desejo, morte e amor sem as camadas de proteção que hoje nos são tão familiares. Havia uma entrega, quase infantil em sua radicalidade, mas profundamente verdadeira em sua intenção. E talvez seja por isso que ainda comovem. Porque a dor deles não era performática — era vivida. Porque o amor que sentiam não era irônico — era trágico, grandioso, inalcançável. Na prosa, o Romantismo ofereceu ao Brasil o que ele mais precisava: personagens que representassem os mitos fundadores de uma identidade nacional. Mas esses personagens, por mais idealizados que fossem, revelam muito mais do que aparentam. Iracema, com seus cabelos de azeviche e lábios de mel, não é apenas uma figura indígena romantizada — é também um retrato do desejo colonial. Peri, o herói que tudo sacrifica, é menos um personagem e mais uma projeção de um país que gostaria de ter sido, mas que nunca foi. Ao reler esses textos com o distanciamento histórico que hoje temos, é possível enxergar não só os valores do século XIX, mas as estruturas que ainda sustentam nossa visão de nação, gênero e alteridade.

Mas o que dizer do Romantismo hoje? O que ainda ressoa? Num tempo em que a frieza emocional parece um sinal de força e o cinismo virou moeda corrente, há algo profundamente político em se permitir sentir. A intensidade dos românticos — ridicularizada por alguns — pode ser lida, na verdade, como um gesto de resistência contra a cultura da indiferença. Voltar aos românticos é relembrar que a literatura também é feita de sangue, lágrimas, fantasia e obsessão. Que o amor pode ser uma revolta. Que a morte pode ser poética. Que a natureza pode ser mais do que paisagem: pode ser espelho da alma. Além disso, muitos temas centrais ao Romantismo retornam na literatura contemporânea com roupagens diferentes.
O gótico, o trágico, a confissão e o delírio emocional voltam a frequentar livros, séries e músicas. A estética do desajuste, do excesso, da escuridão — tudo isso, que já viveu nos porões românticos — encontra hoje novos meios de expressão. O romantismo está nos autoficcionais que confessam dores íntimas, nos contos de terror que se alimentam da morte como metáfora, nas personagens que vivem fora do tempo, devoradas pela paixão ou pela perda.
Ler os românticos, portanto, não é apenas um exercício de nostalgia. É, muitas vezes, uma forma de reencontrar em nós mesmos aquilo que a pressa e a adaptação nos forçaram a abandonar: a vulnerabilidade, o espanto, a crença de que o amor e a palavra ainda podem salvar. E se esses autores nos incomodam, é porque ainda cutucam feridas abertas. Feridas que, longe de serem superadas, continuam a nos definir. Não, os românticos não são ultrapassados. Nós é que fomos domesticados. Em tempos de discursos objetivos e afetos higienizados, talvez seja hora de permitir que a literatura nos transborde novamente. Que ela nos devolva o exagero, o lirismo, a intensidade. Porque só quem já amou sem medida, só quem já escreveu sem cálculo, só quem já chorou por uma ideia de beleza, entende o que é ser — ainda hoje — um pouco romântico.


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